was successfully added to your cart.

“A fazenda está pegando fogo” disse minha mãe, ao tempo que um rubor vermelho de medo tomava conta da sua pele. “Fiona está presa dentro da casa. Ela não pode sair”. 

De repente, uma história que eu tinha visto e ouvido no noticiário por meses a fio como um pesadelo abstrato atingiu nossa família. E eu estava em uma sala de estar a 250 quilômetros de distância, sem saber o que fazer.

A frente de incêndio queimou os piquetes que cercavam a casa e bolas de fogo explodiram uma ponte de madeira que era o único ponto de acesso à fazenda.

Credits: Chris Wright.

Freneticamente, começamos a ligar para todos que conhecíamos perguntando se havia algo que eles pudessem fazer para ajudar. Muitos responderam, mas não sabiam o que podiam fazer. Os incêndios continuavam devastando toda a costa sul. A situação era tão grave que o Corpo de Bombeiros Rural havia fechado as rodovias por centenas de quilômetros.

Nossos amigos e familiares na cidade não conseguiram sair e os caminhões de bombeiros não conseguiram entrar. Depois as linhas telefônicas caíram e não soubemos nada por horas.

O primeiro-ministro postou um vídeo no Facebook. Ele nos disse para sermos “pacientes e calmos”. Eu queria gritar.

Credits: Chris Wright.

Duas horas depois, uma mensagem de texto chegou dizendo simplesmente “estou bem”, mas sem mais informações, não sabíamos o que fazer ou quando tinha sido enviada.

Finalmente, 90 minutos depois, fizemos o primeiro contato novamente com minha tia. Ela estava bem.

Depois de horas à espera de uma resposta por ajuda, descobrimos que foi um vizinho quem enfrentou paredes de fumaça impenetráveis e bolas de fogo imprevisíveis, atravessando prados consumidos pelo fogo, para ajudar minha tia e um amigo próximo a escapar do fogo que os cercava. Sem a coragem dele, não sei o que teria acontecido.

“Estava tão quente que você não conseguia nem se levantar. Eu nem quero pensar nisso,” explicou minha tia por telefone enquanto descrevia o que havia acontecido. Ela então começou a listar todas as perdas.

“Perdemos os galpões, o caminhão, … As galinhas estão mortas … Perdemos metade das vacas… Perdemos a fazenda… Eu não sei se a casa vai ficar bem …”

Foi assim que começamos a entender o impacto dos incêndios em uma fazenda que meu avô, que trabalhava em silvicultura, costumava dizer “nunca queimaria”.

Apenas três dias antes, tínhamos passamos o Natal juntos nessa mesma fazenda. Todos os dias, durante uma semana, vimos novas colunas de fumaça nas colinas próximas ficarem vermelhas à noite. Caminhamos na areia branca e vimos como as marés deixavam as praias  cheias de folhas queimadas.

Mas apesar do tamanho das nuvens de fumaça, nós nos iludíamos com histórias de como a casa havia ficado ali por mais de cem anos. Nunca tinha visto um incêndio florestal. Muitos chegaram perto no passado. Mas, mesmo quando as chamadas para evacuar a área chegaram, sentimos que estaríamos seguros.

Mesmo naquela manhã, quando as temperaturas em Nova Gales do Sul começaram a subir acima de 40°C e os ventos começaram a uivar a 60 km/h, não sabíamos o quanto as coisas poderiam ficar ruins. Depois das 10 da manhã, recebemos a ligação; “A fazenda está pegando fogo… Eu não consigo sair.”

No final, a frente de incêndio de Currawan varreu a fazenda do meu avô no último dia de 2019 e deixou preto o cenário exuberante verde e cheio de cangurus da minha infância. Vinte e seis vacas Angus morreram. Catorze galinhas. Inúmeras espécies endêmicas morreram. A nossa casa sobreviveu incrivelmente, mas as casas de dois vizinhos não.

Credits: Chris Wright.

Três dias depois, os fogos varreram novamente a fazenda, mas a maior parte do dano já tinha sido feito.

As rodovias se abriram logo depois e passamos a maior parte do tempo desde então com a família, por perto, tentando entender como limpar e reconstruir a região.

A paisagem está pontilhada por árvores sombrias e queimadas, tocos fumegantes, folhas murchas e solo preto e vazio.

Ainda não temos eletricidade na fazenda, por isso estamos ficando com familiares, todos compartilham o que têm. Temos uma família grande e muito apoio. Temos sorte. Mais sorte do que a maioria das pessoas aqui.

A comunidade de Conjola fica a 5 minutos de carro da fazenda de nossa família. Eles perderam 89 casas e três moradores morreram naquele dia. A maioria morreu em seus carros, tentando fugir.

Todos na costa sul foram afetados. Muitos acreditam que os fogos ainda vão continuar. Há muitas pessoas desabrigadas e muitas mais poderiam perder suas moradias em breve.

Durante a última semana tornou-se comum cumprimentar as pessoas dizendo: “Você foi atingido pelos incêndios?” ou “Sua casa está bem?”.

Credits: Chris Wright.

Também virou habitual ouvir histórias incríveis de pessoas se ajudando. No dia seguinte ao incêndio, amigos de toda a região vieram à fazenda em carros 4×4 para ajudar a apagar incêndios e tentar ajudar.

Durante as próximas semanas tentarei contar algumas dessas histórias e descrever o que se sente aqui. Nos últimos dias não consegui me concentrar o suficiente para fazê-lo.

Os incêndios ainda estão acontecendo em toda a Austrália, e continuarão pelos próximos dois meses. Deve chover esta semana, mas ainda existem centenas de incêndios, 100.000 toneladas de lascas de madeira queimando em Éden, e os incêndios em Gippsland e Kangaroo Island só podem ser interrompidos por improváveis inundações.

Muito mais famílias podem enfrentar dias mais assustadores do que os nossos, e temo que as estimativas de mais de um bilhão de animais selvagens perdidos subam novamente. Os australianos respiram fumaça há meses e os especialistas desconhecem quais podem ser os impactos na saúde.

Credits: Chris Wright.

O que sei é que esses incêndios foram previstos. Não sabíamos exatamente quando ou onde, mas em 2008, nossos melhores cientistas e economistas disseram que até 2020 minha região sofreria incêndios piores do habitual.

Essas previsões não foram apenas ignoradas e zoadas por líderes em ferias no Havaí, mas foram usadas para obter lucro.

Bilhões de dólares foram distribuídos em subsídios aos combustíveis fósseis e lucros isentos de impostos para proteger um setor que todos sabiam estar alimentando a crise climática.

Por enquanto, é isso que a pior crise climática da Austrália fez na fazenda de nossa família.

Credits: Chris Wright.

Climate Tracker

About Climate Tracker

A network of over 9,000 passionate young journalists, communicators and activists, getting climate change in the headlines around the world. Find out more about us at climatetracker.org/about/